Wednesday, October 31, 2007
'acho que a gente já se teve demais'
O silêncio tomava conta do apartamento, a não ser quando ele colocava pra tocar na vitrola os seus discos do Chico Buarque. Ela odiava e saia para caminhar.
Eles evitavam cruzar o mesmo caminho, assim não precisavam trocar olhares, nem palavras.
Era sexta feira, ele havia acabado de sair do bar e no caminho de casa pensava em como falar pra ela que não tinha mais jeito, era hora de se separar.
Ao entrar no apartamento levou um susto. Havia caixas fechadas pelo corredor, algumas prateleiras estavam vazias e ele sentiu uma estranha sensação.
Ela saiu do quarto, com o cabelo bagunçado, uma roupa desleixada, cheia de livros na mão.
Os dois passaram algum tempo se olhando.
Foi quando ele percebeu o quanto ela era realmente linda e como ela era importante para ele. Ela lembrou dos momentos em que somente ele a entendia e da primeira vez que ele disse ‘eu te amo’.
Eles se aproximaram e se beijaram como há tempos não faziam.

Enquanto o sol timidamente surgia no horizonte, ela abria os olhos, ele a observava. Não havia mais nada a dizer, era a hora de cada um seguir o seu caminho.
Os dois sabiam que já haviam vivido o suficiente ao lado um do outro e que apesar de difícil, a despedida não precisava ser dolorida.
Cada um seguiu seu caminho levando as lembranças de dias coloridos, mesmo quando nublados, e a certeza de terem feito o melhor ao outro.
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ilustração; roy lichenstein
título; criaturas - como eu entendo o amor.
Friday, September 21, 2007
Do Amargo Então Eu Provei [Parte 2]

Thursday, May 10, 2007
Do Amargo Então Eu Provei [Parte 2]
Orgulhoso do jeito como era não iria mesmo ligar para Julia, mesmo morrendo de vontade de conversar com ela. Três minutos depois que desligou o telefone Julia se deu conta da besteira que havia feito.
- Oi, querido!
- Oi, tudo bem, Ju?
- Não muito bem.
- Ué? Que aconteceu?
- Não faça mais isso comigo!
- Isso o que?
- Ficar dias sem me ligar como fez.
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título -> um dente a menos (sapatos bicolores)
ilustração -> wrong number (shag)
Monday, April 23, 2007
Do Amargo Então Eu Provei [Parte 1]
Julia era uma garota tímida, sonhadora e estava sempre a procura de um grande amor.
Às vezes, nos finais da tarde, os dois se encontravam em um café próximo ao museu. Passavam algum tempo conversando e nada além disto.

Eles já eram amigos há um bom tempo e sabiam muito um da vida do outro. Heitor costumava dar conselhos sobre relacionamentos para Julia, que o adorava ouvir contando sobre suas aventuras amorosas. Ela achava que ouvindo as histórias dele, poderia entender um pouco mais sobre homens, o que nunca acontecia.
Com o tempo, os encontros passaram a se tornar mais freqüentes. Para Julia era tudo muito normal, pois Heitor era um grande amigo e uma ótima companhia. Agora Heitor, estava se sentindo cada vez mais confuso.
Sunday, April 15, 2007
UM PROBLEMA DE APARENTE E FÁCIL SOLUÇÃO

Um relacionamento nunca é simples. Por mais que as duas pessoas se entendam, se gostem, tenham afinidades mil, desentendimentos irão ocorrer. Agora, se entre duas pessoas já não é nada fácil, imagine quando existe outra no meio.
A primeira coisa que vem a cabeça (pelo menos na minha) é: Imagine! Jamais aceitaria isso! Ou ele está só comigo e mais ninguém, ou nada feito! Porém as coisas mudam quando você é a OUTRA!
Às vezes, é melhor fechar os olhos e fazer de conta que não sabe de nada, ir levando e deixar ele pensando que está te fazendo de idiota, quando na verdade você não tá nem aí e tudo o que quer é aproveitar o momento, sem precisar pensar no dia seguinte e muito menos ficar lembrando o quão sacana e filho da puta o cara está sendo.
Esta opção funciona bem apenas quando você não quer nada sério com o indivíduo e ainda está em condições de separar o lado racional do emocional. E neste caso é sempre bom lembrar que quem está na pior situação é a atual namorada que está levando o chifre e sendo feita de otária pelo cara que todo o dia lhe diz: te amo!
Agora você tá pensando: ‘Que guria sacana essa ‘outra’! Sabe que o cara tem namorada e continua com o rolo!’ Pois é, mas pense comigo, quem tem a namorada e está traindo?
Ah! E um detalhe importante é que o sujeito comprometido, normalmente é quem começa, é quem vai atrás da ‘outra’! E a ‘outra’, livre e desimpedida, e ainda muitas vezes sem nem saber que o cara tem namorada, não vê problema algum em aproveitar, já que o cara se aproximou dela!
Só que é claro que nem tudo é perfeito para a ‘outra’. Poderia ser, se ela não fosse normal e tivesse total controle sobre seus sentimentos, se ela conseguisse levar o ‘romance proibido’ sem se envolver demais.
Então é aí que as coisas complicam! Porque se você está no papel da outra e sente vontade de levar essa história em diante, é porque você está começando a se envolver, está começando a gostar do cara. E é aí que mora o perigo, pois a existência da legitima namorada vai começar a incomodar.
Vai começar a incomodar porque é com ela que ele vai passear a tarde pelo centro da cidade, é com ela que ele vai dividir o cobertor, num sábado chuvoso, pra assistir um filme na tv, é pra ela que ele vai comprar presentinhos e ligar pra saber se acordou bem.
Quando esse tipo de coisa começa a fazer mal, é melhor você cair fora. E caia fora o quanto antes, pois quanto mais demorar, mais difícil vai ficar e mais vai machucar!
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ilustração: roy lichtenstein
título: pensando nela - golden boys.
Friday, April 06, 2007
O tempo vai mudar, garoa e solidão
Andando pelas ruas, enquanto ela percebia pessoas estranhas, as calçadas irregulares não atrapalhavam seus passos rápidos e o vento frio batia em seu rosto, causando uma ótima sensação.
Sem direção, Alice caminhava e tentava encontrar alguém. Um alguém que ela não conhecia e já nem acreditava que existia.
Porém ela continuava a procurar por algo diferente. Estava cansada das mesmas pessoas, das mesmas festas e das mesmas ladainhas de sempre. Nada mais a satisfazia. Há tempos que a cidade estava pequena demais para Alice.

Wednesday, March 28, 2007
A Calçada da Fama
Logo a tarde, ela me liga, me chama pra sair novamente, com um tom mais sóbrio falo que não, sinceramente sou de mais para ela, pra ela e pra qualquer uma daquele lugar, pelo menos era isso que pensava, na noite seguinte lá estava eu de novo, mais um show que resultaria em mais uma mescla de salivas e outras coisas, enquanto tocava minha guitarra procurava alguém diferente, estava cansado das mesmas, queria algo novo... Alguém que pudesse me levar à loucura, o que não era muito difícil. Depois da terceira dose tudo era mais fácil, mas o que posso dizer, a noite terminou em nada, nenhuma das vadias do local quis sair comigo, posso dizer que isso me deixou frustrado. Será que eu não era mais o mesmo? Será que eu não era tão bom quanto antes? Ou pior, será que eu nunca fui tão bom quanto imaginei? Este pensamento mais tarde me deixou aflito, no quarto sozinho eu queria saber em que eu havia me tornado, vamos ser sinceros, eu não passava de um animal em busca de prazer. Repletos desses pensamentos cai no sono, a manhã poderia me trazer uma noticia melhor, ou talvez nem tanto.
Na manhã seguinte o vocalista da minha banda me liga, e de maneira ríspida diz que eu não faço mais parte da banda. Como isso era possível? Eu havia fundado aquela banda, ensinado todos a tocar, e mesmo assim aquele tremendo careta teve a cara de pau de me dizer isso, agora eu estava em fúria, eu já não tinha as vadias e ainda não faria parte da minha própria banda? Irado peguei o celular e liguei para o Junior, camarada de anos, eu o coloquei na banda alguns meses antes, quando nosso antigo baixista nos abandonou, pergunto-lhe o que estava acontecendo, ele constrangido me diz que eu estava fora, que eu não tinha o profissionalismo necessário, e que graças a mim a banda deixava de se desenvolver. Desligo o telefone na cara do sujeito, que ingrato! Mas posso dizer que isso foi uma pancada muito forte para mim, agora eu estava desiludido com tudo e com todos, mas ainda havia uma esperança, aqueles idiotas nunca achariam um guitarrista tão bom quanto eu, e sexta que vem a apresentação deles seria um fracasso, depois de tudo isso viriam correndo implorando para eu voltar, pensando desta maneira tudo parecia simples, o meu ego dizia que eu era o melhor, e que nenhum outro poderia me substituir à altura, e pior, não é que eu estava certo?
Na sexta seguinte a banda estava lá, o guitarrista tinha cara de ser um panaca que não saberia nem afinar o instrumento corretamente, para meu infortúnio eu estava errado mais uma vez. Aquele maldito realmente não estava no meu nível, ele estava um patamar acima, quando a musica começou, aquele desgraçado mostrou uma técnica invejável, nesta hora meu mundo terminou de cair, agora o que eu iria dizer para minha família, que eu queria viver da música sendo que nem mais banda eu possuía! Provavelmente minha mãe faria eu voltar aos estudos, o simples pensar disso me dava medo, de guitarrista amado a estudante medíocre? Naquele tempo eu ainda acreditava que o estudo não me levaria a nada! Naquela noite o que eu era? Um idiota hipócrita que banalizava tudo, sem fazer nada para tentar muda-lo, mas, por favor, me perdoe, eu tinha apenas meus 16 anos, e quem um dia não sonhou em ter uma banda e levar o rock'n roll para o mundo! Até posso dizer que cheguei mais perto do que muitos! Naquela noite eu estava prestes a me afundar nas pílulas quando avisto algo de novo!
Naquele mesmo bar de sempre, com aqueles mesmos estúpidos de sempre eu a vi, ela dançava ao som da banda como se nada a preocupasse. Então eu percebi que o mundo podia ser melhor, tudo o que eu tinha que fazer era ir lá. Chegando nela logo descobri seu nome, Valéria, bonito nome eu disse, e logo perguntei se ela estava acompanhada e a maldita fez questão de acabar com minha noite e com minha vida, ela me disse que era namorada do guitarrista. Sim, aquele que tirou o meu lugar, então o que poderia eu fazer agora? Estava acabado, transtornado, desolado e por fim humilhado, me sentia um tremendo retardado, naquela noite voltei pra casa mais cedo, jurei que nunca mais voltaria para aquele lugar e que nunca mais veria aqueles idiotas.
No mês seguinte me mudei pra capital, estudei e hoje estou me formando em direito, o curso foi corrido mais eu dei conta. E agora pensando no passado eu vejo que tudo poderia ter sido mais legal...
Ah, e quer saber sobre a banda? Três meses depois eles estouraram e ficaram famosos país a fora, tudo que eu posso fazer é desejar sorte a eles, e que talvez em alguma entrevista eles lembrem que eu comecei tudo aquilo! E que por falta de empenho e pensar que eu era maior que o mundo, acabei me perdendo no caminho!
Tuesday, March 27, 2007
Você foi embora... Sem me avisar

A única coisa que os dois pensavam ter em comum era os lugares que costumavam freqüentar. Ele era formado em sociologia, mas trabalhava como fotógrafo. Ela estudava psicologia e não tinha o menor dom para as artes. Ele não era um cara muito amigável. E ela procurava manter a discrição sempre.
Às vezes andando pela rua eles se cruzavam e fingiam nem se conhecer. Outro dia, ela estava na loja de discos que costumava freqüentar, distraída como sempre, quando ele se aproximou: ‘você deveria ouvir o primeiro disco deles, a gravação é mais crua e a pegada muito mais pesada, acho que você iria gostar.’ E do mesmo jeito que ele aparecia, quando ela percebia, ele já estava longe, andando com passos apressados e despreocupados.
A noite, não era diferente. No meio da pista, volta e meia se esbarravam, trocavam algumas palavras. Quando não comentavam sobre alguma banda que gostavam em comum, normalmente trocavam insultos, mas nada que os impedia de se encontrar após os shows.
Ela sentia uma certa atração e ao mesmo tempo uma aflição quando ele a rodeava. Ele era inconstante e imprevisto. Ela gostava das coisas planejadas, tinha medo do inesperado.
Era mais uma noite como outra qualquer, após algumas cervejas, trocas de olhares e provocações, novamente os dois estavam juntos... estavam juntos, até a hora em que ela percebeu que ele já tinha ido embora. ‘Filho da puta!’ pensou ela.
E não era a primeira vez que ele a havia abandonado no bar. Como sempre, após um momento de muita raiva, logo ela esquecia e continuava a se divertir com as amigas. Só que ela estava no seu limite. Era preciso dar um basta nisso.
Ela afastou-se por um tempo, parou de freqüentar os mesmos lugares, parou de passar pelas mesmas ruas. Ele sentiu falta, mas seu orgulho não permitiu procura-la.
Já havia passado quase um mês, quando se encontraram na festa de um amigo em comum. Ela o ignorou. Ele queria muito conversar. Ela dançava. Ele não se movia e, encostado no bar, observava cada movimento dela. Não adiantava, ela não se importava mais. Ela foi embora. E ele não se conformava.
‘Alô?’ – ela atendeu o telefone.
‘Ei, onde você tá?’ – perguntou ele.
‘Em casa, dormindo!’ – respondeu, de forma nada educada.
‘Posso passar aí?’
‘É claro que não... estou dormindo e não quero ser incomodada’.
‘Estarei amanhã naquele café de sempre, se quiser me ver, aparece por lá no final da tarde’ – e desligou logo em seguida.
Ele não se surpreendeu quando, às 18 horas e 17 segundos, ela entrou no café. Ela vestia uma camiseta que ele adorava, seu cabelo estava preso de um jeito que ele gostava. E, enquanto ela andava na direção de sua mesa, ele a observava. Sua vontade era de se levantar e abraça-la, beija-la e falar que ela fazia falta, mas ele não se moveu, continuou fumando e agiu com indiferença. Ela se sentou, colocou a bolsa na cadeira ao lado, chamou um garçom e fez seu pedido. Ela queria dizer que era bom estar perto dele novamente. Ela queria sentar ao lado dele e abraça-lo, mas continuou no mesmo lugar, pegou uma revista e começou a ler.
‘Vamos sair daqui!’ – disse ele.
‘Aqui está ótimo pra mim’.
‘Você continua mal humorada, como sempre’.
‘Só estou dizendo que aqui está ótimo, não quero sair daqui’ – ela respondeu, sem tirar os olhos da revista.
Depois de mais um trago em seu cigarro ele se levantou e saiu em direção ao banheiro. Ela terminou de tomar seu café, pagou a conta e foi embora.
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título - você foi embora [graforréia xilarmônica]
ilustração - fabz.
Sunday, October 01, 2006
AS COISAS NUNCA SAEM EXATAMENTE COMO PLANEJAMOS

Depois de você ter feito mil planos e ter imaginado tantas coisas legais... Algo tem que acontecer e melar com tudo. Aí, quando você acha que tudo de errado já aconteceu, algo vem e te surpreende! Sim!! Algo pior ainda poderia acontecer!
Muitas vezes a culpa é sua, somente sua, pois quem manda ter criado expectativas e ter feito lindos planos em relação a alguma coisa ou até mesmo em relação a alguém. Nestas horas sempre me lembro do Kevin Arnold, quando ele disse no último episódio da série Anos Incríveis, que as coisas nunca saem exatamente como planejamos! E ele tem toda razão!
Então para que planejar, se algo vai acontecer pra ferrar com tudo? Pra que imaginar algo em relação a uma pessoa, se já sabemos que mais cedo ou mais tarde quebraremos a cara?
Talvez por pura tortura ou pela necessidade de escapar da realidade que às vezes faz muito mal.
Eu não sei, mas também, quem disse que a vida teria graça se tudo saísse de acordo com o planejado?
Ilustração. Roy Lichtenstein.
Sunday, September 10, 2006
‘Ce livre ne doit pas être exposé en vitrine’

Trópico de Câncer, publicado em 1934, é o primeiro livro do norte-americano Henry Miller.
Nas primeiras edições, preso a capa, havia um papel impresso com a seguinte informação: ‘Ce livre ne doit pas être exposé en vitrine’ (o livro não deve ser exposto nas vitrines), por ser considerado pornográfico. Por este motivo o livro foi publicado apenas em francês e liberado nos Estados Unidos somente em meados dos anos 60.
Neste livro Miller relata sem censura alguma de suas experiências numa Paris do início dos anos 30.
Henry Miller teve grande influência na origem da literatura Beatnick.
“Meu mundo de seres humanos perecera; eu estava completamente sozinho no mundo e por amigos tinha as ruas, e as ruas falavam-me naquela linguagem amarga e triste composta de miséria humana, aspiração, remorso,fracasso, esforço desperdiçado.” Henry Miller – Trópico de Câncer
